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Para entender o buraco em que o Flamengo está enfiado no início de junho de 2022 é preciso retornar a dezembro do ano passado.

Marcos Braz e Bruno Spindel foram a Portugal para convencer Jorge Jesus a voltar. Motivados pelos lenços brancos da torcida do Benfica, em sinal de adeus, para o treinador no Estádio da Luz durante a derrota para o Sporting por 3 a 1. A crise em Lisboa parecia mesmo incontornável.

A dupla de dirigentes poderia ter conversado remota e discretamente com o profissional, demonstrando o interesse, porém com a devida cautela. Aproveitariam e fariam também reuniões virtuais com possíveis "planos B". Para só viajarem com algo muito bem encaminhado, apenas para fechar o negócio com as impressões do contato pessoal.

Mas preferiram criar um circo, com entrevistas enigmáticas e a infeliz ideia de aparecer no Estádio do Dragão para ver o time encarnado levar uma sova do Porto. O presidente do Benfica, Rui Costa, só demitiu Jesus pelo "motim" dos jogadores em defesa de Pizzi, mas também pela certeza de que a dupla de fanfarrões brasileiros já tinha fechado com outro treinador.

Paulo Sousa, que se comprometeu a pagar a multa da rescisão com a seleção polonesa e usou um suposto interesse do Internacional para apressar a decisão do Flamengo. Acelerada também pela pressão de dirigentes no Brasil, especialmente do presidente Rodolfo Landim, que queriam uma solução rápida.

Tudo em nome de um suposto planejamento que visava a pré-temporada. Não podiam esperar até mais próximo da reapresentação dos jogadores, em 10 de janeiro. Pois o Flamengo fechou com Sousa na virada de 25 para 26 e o Benfica demitiu Jorge Jesus no dia 28, véspera da confirmação oficial do novo treinador rubro-negro.

Dois dias que custaram cinco meses de um trabalho que fracassou. Morreu na primeira partida da final do Carioca contra o Fluminense, após dez dias de preparação. Todas as ideias de rodízio, controle de minutagem, versatilidade dos atletas, sistema tático variando do 3-4-2-1 com bola e 4-4-2 na fase defensiva, as triangulações, a busca do homem livre, a ocupação dos espaços...tudo ruiu ali. Também por culpa do desinteresse e das limitações de um elenco mimado e acomodado.

Depois houve uma trégua, já que a direção garantiu a permanência da comissão técnica - até porque demitir mais um treinador seria atestado de incompetência. Sousa foi abrindo mão de suas convicções, uma a uma, em nome da gestão de grupo. Mas a guerra entre o preparador de goleiros Paulo Grillo e Diego Alves, com Sousa comprando a briga do membro de sua comissão técnica, voltou a minar a relação com os jogadores.

O provável ato final de um trabalho que já fedia a podre foi uma derrota para o Red Bull Bragantino, que não vencia há nove jogos. Com gol de Luan Cândido em cobrança de falta lateral que desviou em Andreas Pereira, Hugo hesitou e o lateral do "Massa Bruta" conferiu na segunda trave.

Para depois vir a sequência de erros técnicos e táticos de quase sempre, com time espaçado, pouco criativo sem Arrascaeta, vivendo dos lampejos de lucidez de Everton Ribeiro e sofrendo com Gabigol longe da área adversária. No final, com um homem a mais depois da expulsão de Cândido por tapa no rosto de Matheuzinho, o desespero com Pedro e Leo Pereira, zagueiro que virou um segundo centroavante, na área adversária para receber cruzamentos a esmo.

Um desempenho lamentável e o resultado que coloca um dos elencos mais valiosos do país a um ponto da zona de rebaixamento do Brasileiro. Sem grandes perspectivas e entregue ao acaso mais uma vez. Porque é bem provável que os mesmos que escolheram Sousa serão os que vão buscar um novo nome.

Na emergência, o melhor é contratar um treinador que conheça o futebol brasileiro. Trazer um estrangeiro para se surpreender ao ficar sabendo que o jogo da copa nacional, contra o Atlético Mineiro pelas oitavas, é tão ou mais importante que o confronto com o Tolima na Libertadores, não parece uma solução inteligente.

Este que escreve procuraria Juan Pablo Vojvoda, do Fortaleza. Mas, honestamente, no lugar do técnico argentino, continuaria no clube cearense. Porque o Flamengo é uma máquina de moer treinadores. Justamente pela incompetência no momento da escolha.

Será a sexta mudança em três anos. Só uma deu certo. A exceção. Aquele que Braz e Spindel não puderam esperar dois dias. 48 horas. Que evitariam, inclusive, a postura lamentável e antiética de Jesus em sua "tour carnavalesca" pelo Rio de Janeiro no final de abril.

Jesus era a melhor opção não por "viuvez" ou pensamento mágico que a simples volta do português traria com ele as glórias de 2019. Simplesmente era o melhor profissional que ficaria disponível, já conhecendo o clube e o futebol brasileiro. Com autoridade e o respeito de seus comandados.

Agora os dirigentes rubro-negros carregam nas costas mais um caminhão de tempo perdido.

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